"Um par de botas de camponês e nada mais. E, no entanto...
Da abertura escura do interior deformado do calçado olha-nos fixamente a fadiga do andar do trabalho. No peso sólido, maciço, das botas está retida a dureza da marcha lenta pelos sulcos que longamente se estendem pelo campo. No couro, está a marca da humildade e da saturação do solo. Passa por esse utensílio a inquietação sem queixume pela segurança do pão, a alegria sem palavras por ter mais uma vez vencido a miséria, a vibração pela chegada do nascimento e o tremor na ameaça da morte. O utensílio pode chegar a repousar em si mesmo graças a este modo de pertença salvaguarda em seu refúgio.
Mas talvez apenas observemos tudo isso a respeito das botas no quadro. (...) O que é que acontece aqui? Que obra dentro de obra?
A pintura de Van Gogh é a abertura pela qual se espreita o que é de verdade o utensílio, o par de botas de lavoura. Este ente sai à luz no desocultamento de seu ser. O desocultamento do ente foi chamado pelos gregos Alétheia. Nós dizemos "verdade" (Wahrheit), mas pensamos muito pouco ao ouvir esta palavra. Na obra, se aqui acontece um abrir-se do ente naquilo que ele é e como é, está em curso um acontecer (Geschelen) da verdade."
Martin Heidegger, A Origem da Obra de Arte (Der Ursprung des Kunstwerkes)